terça-feira, 26 de agosto de 2008

A realidade, em pleno século 21, dos trabalhadores brasileiros nos ricos canaviais do país (parte 2)

Este post foi dividido em seis partes porque a matéria aqui apresentada é extensa e densa. Esta série de reportagens, realizada pela Folha de São Paulo (apenas para assinantes), pretende mostrar a cruel realidade do dia-a-dia dos cortadores de cana-de-açúcar no país. É um verdadeiro 'soco no estômago' no comodismo da tal Justiça Social.
"A democratização das nossas sociedades se constrói a partir da democratização das informações, do conhecimento, das mídias, da formulação e debate dos caminhos e dos processos de mudança." (Betinho)
 
Parte 2: "Filhos da cesta básica" e "Operário-padrão"
 

O submundo da cana

Estado que detém 60% da produção nacional de cana-de-açúcar, São Paulo não divide a riqueza derivada do boom de etanol com seus 135 mil cortadores, que vivem muitas vezes em situações precárias
 
MÁRIO MAGALHÃES
JOEL SILVA
ENVIADOS ESPECIAIS AO INTERIOR DE SP
 

Filhos da cesta básica

Estudos divergem quanto ao aumento do IDH em regiões canavieiras
 
Maria Vanilda Sabino diz que a filha Vitória tem uma boneca. A menina de quatro anos, porém, não sabe onde ela está.
Maria mora com o marido nos fundos de uma casa. Cortador de cana, com carteira assinada por usina, Antônio é analfabeto como a mulher.
Com o casal dormem três filhas no quarto. Na cozinha, diante do fogão, dois filhos. Não há geladeira. O terceiro cômodo é um banheiro. Os três rebentos maiores estão no Nordeste - são oito no total.
A alagoana Maria chegou a Serrana no ano passado. O peso de duas meninas caiu para o nível de desnutrição. Engordaram graças a leite e cesta básica doados pela prefeitura. Em junho, como sempre, Maria recebeu R$ 112 do Bolsa Família.
Em mês recente, Antônio ganhou R$ 487 líquidos. Só de aluguel se foram R$ 140. Sua renda é a única do lar.
Artigo inédito dos economistas Francisco Alves (UFSCar) e Marcelo Paixão (UFRJ) analisou 71 municípios paulistas que tinham mais de 40% de superfície total ocupada com cana na década de 1990. Concluiu que nessas cidades a renda é maior, porém apenas sete alcançavam em 2000 IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, que contempla também saúde e educação) maior que a média do Estado. Só 13 superavam o IDH médio de suas microrregiões. E em 43 a desigualdade ultrapassava a das microrregiões.
Também com base em dados do IBGE de 2000, os professores da USP Alceu Salles Camargo Júnior e Rudinei Toneto Júnior chegaram a constatações opostas. Pesquisa da dupla sustenta que os municípios com pelo menos 28,8% de cana-de-açúcar plantada, no conjunto da área da lavoura (não da superfície total), têm IDH maior que os sem esse perfil agrícola.
Em sentido contrário, estudo do presidente do Ipea, Marcio Pochmann, afirma que 81% das famílias dos trabalhadores do setor sucroalcooleiro de SP (agricultura e indústria) tiveram em 2005 rendimento de até dois mínimos.
"É o público do Bolsa Família, de renda equivalente", diz Pochmann.
 

Operário-padrão

Após começar a trabalhar aos 13 anos, ex-campeão de corte está hoje, aos 35, com uma hérnia e a coluna "travada"
 
Valdecir da Silva Reis, o graveto que consome seus dias deitado na cama a ver TV, já foi um campeão. Não tinha para ninguém. Na lavoura, batia recorde em cima de recorde.
Em 20 de março de 2006, colheu 21 toneladas. Em 17 de maio, 28. Oito dias depois, rasgou 560 metros lineares de plantação, cortando cinco linhas de cana para receber por uma - é o critério legal. A rigor, derrubou 2,8 km lineares. O contracheque da empresa Meia Lua imprime a marca da jornada: 52,47 toneladas. Quase uma tonelada por quilo de gente - ele pesava 56 kg. Hoje diz ter 49 kg. Parece menos.
O cortador que arrancava suspiros dos colegas incrédulos definha na casa onde vive de favor em Engenheiro Coelho.
Na roça, não sentia dores. Em 2006, a coluna "travou" e ele não retornou ao canavial. Aos 35 anos, sonha com o dia de voltar ao trabalho em que se tornou o herói dos amigos.
Por maior que seja a vontade, ele desconfia de que não empunhará o facão novamente. Os exames diagnosticaram problemas na coluna lombar, hérnia de esôfago e desequilíbrios nos indicadores de urina.
Valdecir se queixa de dores de cabeça, na barriga, no peito (não fez avaliação cardíaca), no saco escrotal, no ombro direito, nos braços, joelhos e pernas; de falta de força para levantar uma garrafa d'água; de cansaço após caminhar 800 metros; de ouvir mal por um ouvido.
O lado esquerdo do tórax é mais desenvolvido; com o braço esquerdo ele atirava a cana na leira, o corredor aberto na terra onde fica a cana colhida.
 
Segunda divisão
Ainda que o farrapo humano que fala baixinho e sem fôlego sobre seu infortúnio fosse criação de um magistral ator stanislavskiano, ultra-realista, nem assim seria possível bolar uma história com princípio, meio e fim como a dele - os repórteres escarafuncharam o caso com base em fartura de documentos e depoimentos.
Valdecir começou a cortar cana aos 13 anos. Empresas premiavam seus feitos com bicicleta e aparelho de som.
Após "travar" em 2006, obteve auxílio-doença da Previdência. Na perícia de 5 de maio passado, no entanto, foi considerado apto para o trabalho. Sua renda é zero.
Mora com uma filha de casamento anterior e a mulher, Helena. Ela ganha R$ 30 por faxina. Faz duas por semana.
O trabalho para o qual o INSS não identifica "problema grave" para Valdecir exercer "não se pode comparar ao de um escriturário", diz um executivo de usina. Anunciam-se vagas para escriturário com 30 a 40 horas de carga semanal. Em período idêntico, o cortador de cana em SP trabalha, no papel, 44 horas, em seis dias.
De escriturários e cortadores se exigem 35 anos de serviço para se aposentar. A maioria desses, contudo, é safrista: trabalha oito meses por ano na atividade. Não soma 12 meses de contribuição.
O desempenho de alguns é tão exuberante que os célebres campeões cubanos das campanhas de corte de cana aqui pegariam segunda divisão. Em 1965, Fidel Castro condecorou cinco deles, de marcas de 14 a 19,7 toneladas. Na Meia Lua, ex-empregadora de Valdecir, um cortador bateu 35 toneladas em 20 de junho. Os repórteres tentaram falar com a empresa, mas não encontraram seus endereço e telefone.
Os campeões, como são chamados na lavoura os de melhor performance, costumam ser magros e fortes. Valdecir tem 1,65 m de altura.
Samuel Gomes, 38, é um dos recordistas de Guariba. Mede 1,85 m. Barack Obama, 1,86 m. O peso do senador americano é estimado em 77 kg a 82 kg. Samuel, que tem 68 kg, conta ter cortado neste ano 27 toneladas em um dia na usina São Carlos.
Com tanta exigência física, há nove homens (92%) por mulher na lavoura canavieira do Brasil. Em nove culturas relevantes, os trabalhadores de menor média etária são os da cana, 35,5 anos - dados compilados pelos pesquisadores Rodolfo Hoffmann (Unicamp) e Fabíola C.R. Oliveira (USP).
 
Rotina
Ônibus das empresas apanham os cortadores em casa entre 5h e 6h. No campo, a jornada inicia às 7h. Muitos "almoçam" antes de começar a colheita. Há direito a intervalos de dez minutos, de manhã e à tarde. Pelas 10h ou 11h, reserva-se uma hora para almoço - poucos cumprem todo o tempo. O serviço termina às 15h ou 16h, mas há excessos. Os trabalhadores chegam às suas casas entre as 17h e as 19h. Dormem pelas 20h, 21h, para acordar entre as 3h30 e as 4h30.
Pesquisa de análise ergonômica em fase de conclusão, financiada pela Fapesp e coordenada pelos pesquisadores Rodolfo Vilela e Erivelton de Laat, descreve os movimentos dos cortadores.
Um deles, que colheu 11,5 toneladas, deu em um dia 3.792 golpes com o facão e fez 3.994 flexões de coluna. O facão pesa 600 gramas. Golpeia-se a cana no pé, onde se concentra a sacarose. O cortador destro abraça o feixe de cerca de dez canas com o braço esquerdo (ou, vara por vara, com a mão), curva-se e golpeia com o braço direito. Com o esquerdo, atira a cana na leira, de onde a máquina carregadeira a leva.
Em um grupo, a freqüência cardíaca média em repouso era de 57,4 batimentos por minuto. No trabalho, de 112, variação exagerada, conforme os pesquisadores (a diferença deveria se limitar a 35).
A atividade dos lavradores é comparada à de maratonistas, com repetição fatigante de movimentos. Maria Zeferina Baldaia, campeã da Maratona de São Paulo em 2008, foi cortadora de cana no interior. "Uma coisa tem muito a ver com a outra", confirma.
Sindicatos de empregados pedem a redução da carga semanal para 40 horas, com dois dias de descanso.
Cristina Gonzaga, pesquisadora da Fundacentro, fundação de pesquisas do Ministério do Trabalho, defende 30 horas, com cinco jornadas de seis horas por semana. As empresas rejeitam as reivindicações.
É essa vida que Valdecir fantasia retomar. Ele se esconde em casa. "As pessoas vêem a gente na rua e falam que é vagabundo. Não vêem o que a gente tem por dentro, o que a gente sente."
 

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Du

Nunca tinha ouvido falar dessa "competição" entre cortadores de cana, como se estivessem praticando um esporte olímpico ou coisa assim...Só que ao contrário dos atletas, eles não tem reconhecimento nenhum...

NANA

"Valdecir começou a cortar cana aos 13 anos. Empresas premiavam seus feitos com bicicleta e aparelho de som."

Aí, a pessoa que infelizmente é ignorante, se acostumam com essas premiações e acreditam que estejam sendo recompensados, quando na verdade estão sendo estimulados a continuar com esse ritmo de trabalho que só beneficia as empresas.

Max

Oi Juca,

Que horror! Quanto mais leio estes artigos mais assustada fico com os seres humanos: e ainda só vou na segunda parte (será que melhora?)!

Pobre Valdecir...confesso que fiquei com pena dele; a injustiça a que está sujeito...coitado: mas não é novidade para mim, aqui (em Portugal) fazem o mesmo!

Até agora, me parece que no Brazil a escravatura ainda não tenha acabado: o que é isso de "almoçar" antes de trabalhar e, intervalos de 10 minutos (para um trabalho tão exigente a nível físico)?

Chocada, deixo o teu blog...

Beijos

P.S: fazes bem em expôr este tipo de situação! Voltarei para a parte III!

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