segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Carta ao arqueólogo do futuro, deste ou de outro planeta

Num desses "passeios virtuais" pela internet, deparei-me com este texto. Seu autor escreve uma carta muito tocante, a qual direciona aos "arqueólogos do futuro", deste ou de qualquer outro planeta. Ele expõe com leveza e bom humor nossas mazelas sociais atuais que ocorrem mundo afora e, principalmente, no Brasil. Nessa carta, o remetente reafirma toda sua fé e esperança no ser humano, apesar de tantas frustrações.

Ao ler tal matéria, senti-me menos sozinho, menos egoísta e mais reconfortado, pois descobri que ainda existem pessoas que se preocupam com seu semelhante! Vale a pena dar uma conferida!

Boa leitura!

On the phone



Crédito: Agência Carta Maior

Ao Arqueólogo do Futuro

Escave aqui, escave lá!

Somos o país mais injusto do planeta, em nenhum lugar como aqui há tanta diferença entre ricos e pobres, o que talvez dificulte a análise de suas descobertas. Cave com critério, há favelas vizinhas de palacetes, muitas crianças morrem de fome por minuto enquanto bolsas para senhoras são vendidas por 5 mil dólares.

Jorge Furtado

Como vai? Tudo bem? Folgo em saber que temos um futuro na Terra e que, neste futuro, há vida humana, leitores e arqueólogos, isto supondo que o senhor seja um indivíduo da raça humana - eu sou - e que está na Terra. Talvez o senhor seja um andróide habilitado para a leitura do português e, tendo encontrado este texto num fragmento de nosso antigo e saudoso planeta, leia-me em Geronte* (sic), lua de Plutão que, fiquei sabendo ontem, tem atmosfera. Nunca se sabe.

No momento em que lhe escrevo, corre a manhã do dia seis do mês janeiro do ano de dois mil e seis da Era Cristã, esta é a medida de tempo mais utilizada no planeta. Escrevo de Porto Alegre, uma cidade no sul do Brasil, posso vê-la pela janela nesta bela manhã de sol. A temperatura atual é de 28 graus Celsius. A água (ainda existe?) ferve a 100 graus.

Minha atual posição no planeta Terra é de 30 graus, 2 minutos e 24 segundos Sul, 51 graus, 13 minutos e 12 segundos Oeste. Se o senhor estiver cavando por aqui, no bairro Rio Branco, encontrará vestígios de residências feitas de tijolos, vidro, cimento armado e concreto, poucas casas e muitos edifícios, alguns parques, ruas e automóveis. É um bairro de classe média, não saberia lhe explicar exatamente o que isto significa, imagino que a classe média, assim como os pandas, esteja extinta. Escave meio grau mais ao norte e poderá encontrar vestígios da Vila dos Papeleiros, edificada às margens do Rio Guaíba (na verdade, um lago chamado de rio) por pessoas muito pobres. Imagino que, ao contrário da classe média, eles ainda existam, a porcentagem de pobres no planeta não pára de crescer, e faz tempo. Não imagino o que possa ter sobrado daquelas construções de madeira, lata, plástico e papel, mas o local não tem praças nem nada que se possa chamar de ruas.

O problema da arqueologia, desculpe as críticas de um leigo, é definir onde se cava. Até os dias de hoje, seus colegas já encontraram muitas antigas civilizações e, a partir de suas descobertas, construímos a imagem de nosso passado. Talvez novas escavações descubram que o Egito e suas pirâmides não passaram de um parque temático erguido na periferia de uma outra civilização, muito mais adiantada. Isto explicaria aquela esfinge. Aventure-se a cavar pelo planeta afora e encontrará sítios arqueológicos tão distintos como o bairro Rio Branco e a Vila dos Papeleiros, em todas as cidades. O mundo em que vivemos está organizado de forma a separar rigidamente os pobres dos ricos, embora os ricos precisem sempre dos pobres por perto (não muito perto) para que realizem os serviços mais pesados. E os pobres precisam dos ricos, pois sobrevivem de suas sobras.

Até agora todas as tentativas de diminuir as diferenças entre pobres e ricos fracassaram. Ao contrário, a concentração da riqueza é cada vez maior. Individualmente, buscamos acumular riquezas, imóveis e objetos variados. Coletivamente, estamos organizados em países com governos, muitos deles escolhidos diretamente pela população, em votações diretas. Os governos, que deveriam ter como função principal regular nossos impulsos de acumulação de bens e distribuir riqueza, acabam invariavelmente agindo de forma a aumentar a concentração de renda ou, pelo menos, mantê-la exatamente assim como está. Sendo assim, é natural que a guerra armada entre pobres e ricos estoure em vários pontos do país e do mundo, todos os dias. E não há sinais de trégua. Quem cansa de esperar por justiça tende a buscar, pelo menos, vingança.

O mundo vive, há quase cem anos, sob o domínio do império americano, que impõe seus interesses comerciais e políticos com a força de suas armas, como fazem todos os impérios. A lista de países que os Estados Unidos da América bombardearam desde o final da 2ª Guerra Mundial, sempre com a desculpa de transformar o país bombardeado numa democracia que respeite os direitos humanos, é bastante longa: China (1945-46, 1950-53), Coréia (1950-53), Guatemala (1954, 1960, 1967-69), Indonésia (1958), Cuba (1959-60), Congo (1964), Peru (1965), Laos (1964-73), Vietnam (1961-73), Camboja (1969-70), Granada (1983), Líbia (1986), El Salvador (1980), Nicarágua (1980), Panamá (1989), Iraque (1991-2005), Sudão (1998), Afeganistão (1998) e Iugoslávia (1999). Milhões de pessoas morreram nestas guerras, a maioria civis e crianças, e nenhum destes países transformou-se numa democracia que respeite os direitos humanos, mas sim em governos que se mostraram muito lucrativos para as grandes empresas e bancos. Não sei o quanto esta lista cresceu até o seu tempo. Ainda existem países?

Em meu país, o Brasil, fundado na tradição da escravatura, já tentamos todas as formas de governo: monarquia (governo vitalício e hereditário), república (governante civil eleito democraticamente, com sistema presidencialista ou parlamentarista) e ditaduras variadas (governante no grito, por força das armas). Nenhuma deu certo. Somos o país mais injusto do planeta, em nenhum lugar como aqui há tanta diferença entre ricos e pobres, o que talvez dificulte a análise de suas descobertas. Cave com critério, há favelas vizinhas de palacetes, crianças morrem de fome por minuto enquanto bolsas para senhoras são vendidas por 5 mil dólares. (Não sei se o dólar ainda existe, mas com o preço de um destas bolsas poderíamos alimentar bem uma família de cinco pessoas por um ano.) Nos tempos atuais (há 16 anos temos numa democracia presidencialista) já testamos governantes de todas as tendências políticas. Todos falharam. Nosso atual governante, Luiz Inácio Lula da Silva, foi o primeiro legítimo representante dos pobres eleito presidente da república em mais de 500 anos de história. Ele governa o país há 3 anos e não há sinais de mudança no quadro de desigualdade social no horizonte da vida de meus netos (espero tê-los). Aliás, não deixa de ser curioso escrever ao senhor no momento em que o Brasil, que há muito se auto-intitula “país do futuro”, deixa de imaginar um futuro coletivo, político. Restou-nos esperar que o tempo passe. Esperança inútil, já que o tempo sempre passa, esperemos ou não.

De qualquer forma, seja cuidadoso em suas escavações. Se puder, leia nossos livros, veja nossos filmes, escute nossa música. Apesar de nossas misérias, buscamos dar sentido à vida produzindo arte e linguagem e só por isso merecemos o poder do planeta. Não fosse nossa habilidade de refletir sobre o real e compartilhar nossas visões de mundo, nossa capacidade mental de imaginar a vida do ponto de vista do outro, as baratas, ainda mais capazes que os pobres humanos para sobreviver de restos, já teriam tomado conta da Terra. Aliás, o que houve com elas?

Espero ter sido útil. E bom trabalho.

Um abraço,

Jorge Furtado

Porto Alegre, 6 de janeiro de 2006.

Fonte: Agência Carta Maior

*Nota do editor: A denominação correta da lua de Plutão é Caronte.

7 Recado(s). Após o sinal, deixe o seu!:

Su

Juca, que leitura interessantíssima!!!
Será que no futuro teremos feito a diferença?? Eu espero que sim, lendo cada parágrafo dessa carta eu fui refletindo em como as coisas podem tornar-se diferente se realmente tivermos vontade. Pobres e ricos, desigualdades, diferenças... para que tudo isso?!! Eu ainda acredito no ser humano porque sei que nós podemos fazer a grande diferença!! "leia nossos livros, veja nossos filmes, escute nossa música."

Parabéns, Juquinha!!!


*ah.. vou imprimir esse seu texto e mostrar para o meu sobrinho, ele disse que quando crescer quer ser arquiteto (profissão do pai) ou então "aquela profissão que cava e encontra tesouros raros..." rsrs...
Beijão, Juca

Que carta mais completa e cheia de maravilhosas reflexões.
Ela constata que devemos e podemos ser um dos povos mais ricos desse mundo.
Aos jovens cabe ser mais estudiosos e cultos, ler mais é a grande sacada dos nossos jovens, pois deles será o país de amanhã.
Devemos e poder fazer a grande diferença. Pois cultivamos a solidariedade e amor ao próximo. Aesperança do povo brasileiro é algo que contagia a todos do mundo inteiro e bom sabermos que não estamos só neste mundo tão lindo.
Você sempre nos presenteando com o melhor do melhor, parabéns!

Beijos de uma linda e doce semana!
Rô!

PS: tomei a liberdade de passar o endereço da Casa do Escritor a um poeta Português, torquato da Luz. Hoje venci minha timidez e postei sobre ele lá em casa.
Desculpe minha ousadia apenas quero divulgar esse seu espaço tão gratificante.

Beijos!

Du

Jorge Furtado é um dos melhores cineastas do Brasil na minha humilde opinião. Agora lendo essa carta dele, descubro que também é excelente escritor!

Obrigada por compartilhar, Juca!
Beijos, boa semana!

Renata

Juca,
Adorei a carta. Quanta sabedoria!
Obrigada por dividí-la conosco!
Ótima semana :)

luzdeluma

Li essa carta quando foi publicada na Carta Maior. Àlias, está é uma das cartas que foram publicadas, sabia que existem outras? A Agência Carta Maior pediu a médicos, arqueólogos, escritores, filósofos, ensaístas e também a humoristas (Chico Anysio) que, de modo a facilitar o trabalho do tal arqueólogo do futuro, lhe escrevessem dando-lhe dicas sobre o nosso mundo atual para uma melhor compreensão dos destroços a encontrar. Se não me engano, este texto se entitula "Escave aqui, escave lá". Estamos construindo a nossa civilização!! Boa semana! Beijus

luzdeluma

Aff, sou tão desligada que agora que vi que colocou a fonte de publicação! Desculpe!! + Beijus

Anônimo

parabens....
muito inteligente

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