quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Casa do Poeta: Jake & June (ou: Outra história de dias chuvosos)

Crédito: Zaroio.

Antes de iniciarmos, devo deixar claro que se trata de um conto de ficção.

Esta é a história de Jake e June. Não a história completa, claro. Afinal, não vou contar como eles se conheceram, tornaram-se bons amigos e eventualmente se apaixonaram. Não, de jeito nenhum. Vou apenas descrever superficialmente os personagens e relatar o fim de sua história (pelo menos, até onde eu saiba, é o fim).

Jake sempre foi um homem de poucos amigos e menos amores ainda. Totalmente averso à sociedade, até mesmo estranho a ela. Sabe-se que entre os poucos que ele possa chamar de amigos estão aquelas pessoas que você se queixa a Deus por não ter conhecido. Seus amores nunca foram simples "amores"; eram, em verdade, Amores, assim, com "A" maiúsculo mesmo. Talvez até mesmo AMORES, usando todas as letras capitulares. Poucas mulheres ele amou e com menos ainda chegou a se envolver. Dizem que Jake não tinha dores-de-cotovelo e sim dor-de-corno, pois seu sofrimento toda vez que lhe era negado o que queria, parecia mais como alguém que descobre que está sendo traído pela mulher que, duas horas antes, lhe fez juras de eterno amor pelo telefone. Talvez Jake simplesmente gostasse de sofrer, achasse isso estiloso, sei lá. A conquista e perda de June na mesma noite causou-lhe tamanha dor, tão profunda depressão que ouso dizer que ele sofreu tanto quanto João 8 ao perder Eleinad. E olha que sou amigo de João 8, sei que esse fato já data mais de dez anos e ainda hoje, quando chove, uma lágrima sutil escorre solitário de seu olho esquerdo em memória a ela. Escorre, solitária, sem deixar sinal de que por lá passou, exceto pelo ar de melancolia que domina todos os que já presenciaram tal cena. Jake perdeu June semana passada. E parece carregar toda a dor do mundo em suas vísceras.

June, muito mais jovem que Jake, exala aquele ar de boa moça difícil de se sentir hoje em dia em alguém, seja esse alguém velho ou uma menina de cinco anos de idade. Criada sob preceitos que já eram arcaicos e já beiravam o desuso quando Jake era jovem, ela cresceu temente a Deus e aos pais. Mais aos pais do que a Deus, ouso dizer. Zelosa, estudiosa, trabalhadora. Típica menina que você iria querer ter como filha, embora eu ache que não fosse ser uma boa namorada, se é que me entendem. Ah, vá lá! Você que está lendo isso pensa mais ou menos como eu e Jake, que mulheres devem ser MULHERES, independentes, decididas e corajosas. Que devem ter iniciativa. Que devem demonstrar sua feminilidade na maneira como nos amam e não na maneira como nos são submissas. June, até onde posso inferir, era submissa. Sempre à espera do comando paterno. Sempre com homens mais velhos (embora sempre arrependida, pois isso desagradava ao pai), sempre com amigas mais velhas. Sempre numa posição de relativa inferioridade para que sempre houvesse quem pudesse lhe dizer o que fazer e como fazer.

Acho que não descrevi Jake suficientemente. Para completar o quadro basta dizer que ele sempre foi boêmio. Talvez até viciado em cerveja e barzinho, como diriam alguns. Na verdade, Jake só fez amigos ao começar a beber e só conheceu mulheres após beber com elas. Ah, como ele as conheceu! Não apenas de corpo, ele diria até que chegava a compreender o que elas pensavam (ledo engado! Compreender uma mulher é o mesmo que tentar represar o mar). Assim sendo, é difícil acreditar que ele possa ter se apaixonado por June. Mas isso aconteceu. E June, aquela "santinha", se apaixonar por Jake, "aquele cafajeste", como diria seu pai, é bem mais improvável. Mas mesmo assim aconteceu.

Aconteceu também de esse ser um amor impossível. Jake sempre assumira o que sentia por ela, mas June jamais dava uma resposta direta. Um dia marcaram para se encontrar e discutir isso a sério.

Nesse dia, Jake calçou seu chinelo de dedo mais bonito (embora menos confortável) um short mais-ou-menos (único que tinha limpo no dia), uma camisa de linha que todos julgam bonita, exceto ele. Pra completar, usou o perfume importado do tio e pegou emprestado, sem pedir, o anel mais caro de seu pai (um homem pobre, mas apreciador de jóias). June, por sua vez, aguardava em casa, aparentemente tranqüila. Tinha acabado de tomar banho e se vestir quando ele chegou: usava um vestido nem longo, nem curto, desses que não revelam nada sobre as reais intenções da mulher. Sorria um sorriso sem graça, tímido. Daquele tipo de sorriso que as mulheres costumam dar quando um homem fala sobre algo que não entendem ou quando estão desconfortáveis na situação atual e não querem demonstrar.

Enfim, saíram juntos, para conversar. Jake, embora embasbacado com a beleza de June (que nem era tão bela assim, mas vocês sabem como é ridículo um homem apaixonado...), o coração levemente fora de ritmo, foi direto: perguntou, ao término do segundo copo de soda limonada o que June sentia.

Aqui cabe uma pausa para explicitar o ambiente. Saíram da casa de June por uma ruazinha de pedra, dessas que hoje em dia são difíceis de se encontrar e foram sentar num banco de praça. Cena ridícula, eu sei, mas ela era extremamente jovem e infantilizada e ele apaixonado, fazer o quê? Claro que começou a chover. Alguém aqui já viu uma história de amor ou uma cena triste que não tivesse aquela chuvinha fina e constante ao fundo? Pois é, bastante clichê, mas chovia no início. Assim, foram pra um restaurante, onde poderiam se abrigar da chuva e conversar sem serem ouvidos, embora estivesse cheio e sentassem na entrada. A velha e boa técnica de "esconder-se no meio da multidão". Lá, tocava Zeca Baleiro no início. Depois Toni Braxton e Joan Osborne. Deve ter tocado outras coisas, mas Jake não lembrou/não quis relatar. Sim, lá ventava muito, estava razoavelmente frio, mas Jake ainda achava que poderia tomar algumas cervejas se a conversa não necessitasse dele sóbrio.

June tremia. Dizia ser de frio, embora eu afirme que fosse de nervosismo. Durante hora e meia (tempo para secar 600ml de refrigerante), enrolou. Ao saírem, disse que Jake já sabia a resposta, embora a mesma não tenha sido dita. Não verbalmente, pelo menos. Ela veio na forma de um beijo que parecia não querer sair. Um beijo com emoção, desses que quem dá enche os olhos de lágrimas. Um beijo pouco experiente, desses que estralam baixinho quando os lábios se separam e que as línguas mal se unem. Mas ainda assim um beijo. E que beijo! Jake ficou tão emocionado que não conseguiu manter mais a voz monocórdica que usava quando queria falar sério, aquele tipo de voz que inspirava confiança absoluta no que se fala. Na verdade, após esse beijo, houve um tempo sem que nenhuma palavra fosse dita.

Finalmente, com uma voz rouca, trêmula, daquelas que parecem se arrastar pela garganta pesadamente antes de sair, Jake expressou o que todos sabiam, mas não admitiam: que eram e continuariam sendo impossíveis.

"June, eu te amo. Mas te amo tanto que dói até falar disso. Ao te abraçar e sentir teu cheiro, percebo que não quero sentir jamais nenhum odor artificial de perfume algum. Teus lábios para mim são como a entrada para o paraíso. E teu corpo, colado no meu, acende um fogo diferente. Não, amor, não me olhe assim. Não é o fogo do desejo sexual que se apodera de mim... É algo sublime, perfeito, quase divino. É o fogo da vida, aquela sensação de finalmente ter descoberto que minha função neste mundo nada mais é que te amar e tentar te fazer feliz... Porra, te amo tanto que chego até a ficar meloso como menino de quinze anos! Mas June, querida, uma coisa que percebi é que você tem razão: somos impossíveis. Completamente. Teve coragem de me beijar, de chorar no meu ombro e me fazer chorar, mas não ousou dizer que gosta de mim, embora eu tenha passado horas perguntando isso. Se não teve coragem de me dizer que gosta de mim, como contará para sua família que está com o perdido? Vê como seria difícil? Incrível, June (voz bem mais rouca, engasgada. Sinal de que está chorando ao falar), mas hoje, após tanto tempo, percebi o quanto nos amamos e o quanto poderíamos ser felizes. (longa pausa. Recomeça com a voz bem mais baixa, já sem engasgos). Percebi também que fomos fadados a falhar, a sofrer e o quanto somos diferentes. Como você diria, Impossíveis."

Sei lá se essas foram suas palavras exatas. Só sei que depois disso ambos choraram mais um bocado, se abraçaram e novamente trocaram beijos. Jake foi deixar June em casa e, pela primeira vez na noite, sentiu frio. Não o frio do tempo, do clima. Mas um frio muito pior: o frio de sua alma. A dor que dele emanava era quase palpável.

Sentaram ambos na calçada, June, com a cabeça entre os joelhos, nada falava. Jake, prendendo a respiração (pois era mais fácil prendê-la do que arriscar respirar como alguém que acabou de chorar e queria voltar a fazê-lo), alisava levemente, com dois dedos apenas, o médio e o indicador, seus cabelos. Sentia algo meio impossível de se descrever, que só aumentou quando segurou na mão dela e começou a acariciar o braço. Sei lá, imaginem um choque leve, desses que apenas eriçam os pêlos, mas que podem ser captados pelo sistema nervoso. Um choque fraco, incapaz de causar mal ao organismo, mas ainda assim capaz de gerar uma reação parecida com o consumo de algumas espécies de psicotrópicos.

Novo abraço, poucos beijos, várias lágrimas suspensas e Jake se despede de June, prometendo sempre ser amigo dela e jamais repetir tal cena. Jake sabia que mentira. Ele não iria ser amigo dela. Iria sumir, ir pra longe, alistar-se na legião estrangeira, ou em qualquer milícia, apenas para não precisar pensar sobre como seria a vida se a tivesse sempre em seus braços.

E quanto a June, vocês me perguntam? Não sei e nem quero saber. Uma mulher que faz um amigo meu sofrer em uma semana o mesmo que João 8 passou em dez anos não me interessa. Espero que sofra bastante e perceba o quanto perdeu.

-- Paracelso de Antígona,
cronista, amigo de Jake e
organizador das inúmeras
notas que um dia comporão
o "Livro Sagrada do Cara"

P.S.: talvez esse conto não seja totalmente ficcional. Poderia ter acontecido comigo, contigo ou algum amigo teu. Afinal, quem não conhece história similar, passada numa ruazinha de pedra, entre dois amigos que descobriram ser mais que amigos e regados pela chuva? Talvez seja ficcional, mas eu a tenha copiado de algum canto. Ou talvez seja real a história, os fatos em si, mas o narrador que a conta não passe dum devaneio de uma mente superior, sendo ele o único elemento não-real daqui...

-- Paracelso de Antígona,
após sua dose diária de
ópio, duvidando de sua
própria existência.

Autoria: João Octávio Anderson Trindade Boaventura

Sobre o autor:

João Octávio era apenas mais um rapaz sem nada que o diferenciasse dos outros: liso, morava com a avó e os tios, gostava de quadrinhos, animação japonesa e informática. Tinha um gato de estimação e nenhuma namorada. Se achava "o cara" mas era tímido pra caralho. Em suma, era um cara chato, de poucos amigos, que na verdade só eram "amigos" para poderem copiar a tarefa de matemática que ele sempre resolvia.

Mas um dia as coisas mudaram. Sua avó, que mais parecia a Tia May do homem-aranha, lhe comprou um computador financiado pelo programa "click com a gente". Ele se inscreveu no IG, que na época prestava. Descobriu o Google e os sites de putaria. Isso o deixou ainda mais introvertido e anti-social.

Então, numa noite bastante típica, as coisas realmente mudaram. (...) Tais leituras, principalmente as que compõem o assim chamado "livro sagrado do cara", fizeram com que ele se tornasse o ser que hoje conhecemos. Perfil completo...

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Su

Parabéns João Octávio!!!
Belíssimo conto fictício, mas que em sua maioria das vezes pode ser real!!
Beijão

João Octávio

Su, muito obigado pelo comentário. Que bom que gostou. Se o Juca permitir, em breve mando mais contos pra essa seção.

Max

Oi Juca,

Wow! Adorei o conto...June era uma parva e cobarde!
Adorei teres partilhado o conto do João Octávio: que maravilha!

Há muito que não lia algo (na língua Lusa) com tanto entusiasmo!! Muito bom mesmo!

Agora um recado para o João: não está com nada ser anti-social; abre-te para o mundo :D!

Beijos

Parabéns, belíssimo conto João Octávio.
Apesar de fictício tem muito de verdade, quantos homens e mulheres não conhecemos assim.

Hoje estou muito feliz por saber que o trabalho do Juca já está surtindo efeito.

Beijos em seu coração João e abre-te o mundo o amigo Max tem toda razão.


Beijos meu querido Juca e viu é só saber esperar e tudo acontece!

Rô!

Juca

Olá, João!

Certamente que publicarei outros textos seus. Será um prazer!

Abração!

Camila

Juca, fico tão feliz que o primeiro texto da Casa do Poeta tenha sido do Octávio! Ele é realmente um escritor de mão cheia e escreve com a alma.

Parabéns pela belíssima participação, Octávio! Foi uma linda estréia!

Beijos pros dois!

LUCAS DE OLIVEIRA

Gostei do conto!!!

abçs,


Lucas de Oliveira

Glayce Santos

Isso é mais que um conto! E eu já assiti um filme muito pareceido, lembrarei o nome e voltarei na lavanderia para dizer qual é!
Então, parabéns ao Autor pela sensibilidade e precisão...E parabéns pra vc por postar aqui e nos apresentar essa história que, sim, pode acontecer com qlq um!
Ótimo FDS
Beijos

Juca

Ouso dizer que o conto tem um quê de Nelson Rodrigues, de proibido, de tragédia... Bom, pelo menos foi o estilo do Nelson que me veio à mente em vários momentos da leitura. rsrs

João, foi proposital ou mera coincidência a inversão do nome Daniele? :-)

Muito bom o texto, me fez viajar. Obrigado pelo envio! Parabéns!

Abração!

Juca

Oi, Max!

Que bom que apreciastes o conto do João Octávio! Quando abri meu Gmail e vi o email dele com o texto, fiquei todo lisonjeado!

Beijão, garota! Fique bem! :-)

Juca

Pois é, Rô! Você tinha razão, era só questão de tempo para belos textos aparecerem! :-)

Obrigado pela visita!
Beijos!

Juca

Pois é, Camila, quando fui lá no blog do João, vi alguns comentários seus em outros textos. Fiquei muito feliz que ele tenha vindo por indicação sua! Obrigado!

Depois voltarei lá para ler os demais textos. :-)

Beijos!

João Octávio

Pessoal, obrigado pelos elogios ao texto, mas acho que vocês exageraram um pouco ;)

Juca, quanto à inversão de nomes, você tem razão! "João 8" e "Eleinad" fazem parte de uma série de contos e poemas que escrevi de caráter auto-biográfico. A grande maioria pode ser encontrada no meu blog e, talvez, eu mande alguns depois pro teu email para avaliação, ok?

Glayce, fiquei bastante curioso quanto ao filme. Assim que puder, posta aqui o nome do mesmo, ok?

Abraços a todos e obrigado

Juca

Valeu, Lucas! Obrigado pela visita à Casa do Poeta! Volte sempre que quiser! :-)

Abração!

Juca

Glayce, obrigado pela visita. Ia dizer o mesmo que o João: fiquei curioso sobre o filme. Quando se lembrar, por favor, comente aqui. :-)


João, de minha parte, achei seu estilo muito parecido com o do Nelson, sim. Você, assim como ele, escreve sobre o que vemos e o que não vemos nas pessoas, coisas que não temos coragem de dizer nem sob tortura, a eterna luta entre o bem e o mal que, no fundo, ocorre dentro de nós mesmos. rsrs

Obrigado, mais uma vez! Pode mandar os textos. Será uma honra publicá-los!

Abração!

Carol

O mais interessante pra mim foi que Jake amou, amar sempre vale a pena!
Parabéns pelo texto rapazes, autor e divulgador. Ótimo trabalho!
Saudades Juca!!!
BJ!

Juca

Tem razão, Carol! O importante é que ele amou e não vai se sentir culpado depois. :-)

Obrigado pela visita! Também estou com saudades!
Beijos!

Flor ♥

Legal. Estou visitando os blogs que participaram da blogagem e tem poemas muito bons, de poetas melhores ainda! É um achado!!!

Boa noite!

Flor ♥

Flor ♥

Juca, eu concordo muuiito com vc. A construção é linda!!! No site dela tem o e-book, com ilustrações... é fantástico! Passa lá que vc vai gostar!

Bjs.

Juca

Flor, eu fui rapidinho lá e vi o ebook. Achei lindo! Mas voltarei depois com a calma que o trabalho dela merece!

Beijos!

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