sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Batalhando pela realização dos sonhos

Dedico estas duas matérias à minha querida amiga Bete, que acalenta o sonho de ser escritora. Desejo que este sonho vire realidade, nem que seja aos 40, 45 ... 50 anos. Ao menos dois leitores você já conquistou de antemão: D. Tereza e eu (risos)! Boa sorte e boa leitura!

 

Matéria 1:

 

Fiéis ao sonho

A luta pela vocação na trajetória de quatro destacados escritores brasileiros contemporâneos. Inspire-se com eles e corra atrás daquilo que deixa você realmente feliz

por Fabrício Carpinejar

Escritor não nasce pronto. A profissão “escritor” não consta em teste vocacional nas universidades. No máximo, verifica-se uma inclinação às Letras do vestibulando. E parece relativamente fácil ser escritor: boas idéias, caneta e papel (ou um bom processador de textos no computador). Mas como alguém pode adivinhar se é destinado para aquilo? Qual é o segredo para deixar uma carreira estável ou um emprego seguro para se enfurnar em escrever e escrever histórias atravessando madrugadas e manhãs secretamente, sem nenhuma testemunha?

Digitar um punhado de páginas, imprimir, encaixar as folhas numa espiral preta, enviá-las para uma editora e sentir um misto de orgulho e medo. Orgulho porque é seu primeiro livro, medo porque não tem certeza se o esforço valeu a pena. Trabalhar e trabalhar, longe de uma recompensa imediata. O que faz alguém acordar de manhã e dizer para si mesmo: “Eu sou escritor”? Conheça o que dizem alguns autores brasileiros que, a muito custo, conseguiram se impor no cenário das letras. E aprenda a lutar pelos seus sonhos (quaisquer que sejam eles), como eles um dia fizeram.

 

Cara sortudo?

 

Ao tomar nas mãos um livro como os contos de Os Lados do Círculo, de Amilcar Bettega Barbosa, 43 anos, nem se imagina quanto o escritor penou para estar no topo de uma pilha de volumes na livraria. Tampouco que seu autor recebeu a bagatela de 100 mil reais pela obra no prestigiado Prêmio Portugal Telecom em 2005. Mas a predisposição é comentar: “Cara sortudo!” Porém, esse mesmo autor, tão bem resolvido na pequena biografia da orelha do livro, dono de um sorriso cativante na fotografia da aba, poderia ser encontrado atendendo os fregueses do sebo Ao Pé da Letra, em Porto Alegre, no início dos anos 90. Em 1994, Amilcar estava do outro lado de um guichê do Banco do Brasil. Passa mais um tempo, está vendendo seguros. Outro tanto e o autor chegou a ganhar a vida como recepcionista de um hotel na costa lusitana.

 

Amilcar ainda foi engenheiro civil, profissão que exerceu por cinco anos, fez peritagens em obras no interior gaúcho, sempre escrevendo no tempo vago. Até conseguir se impor no cenário literário, ele demorou muito. Muito mesmo. Como ele relata: “Perdi a conta de quantas editoras para as quais mandei o livro. Foi recusado por todas, até que deixei de lado a idéia da publicação e me concentrei num outro livro, que terminei, enviei à editora e foi aprovado. Só depois de publicado esse livro (que na verdade era meu terceiro escrito) é que voltei àquele segundo, o entravado, Os Lados do Círculo. Retrabalhei o livro, propus de novo à editora, que o publicou. E o livro acabou ganhando o grande prêmio, não é incrível?”

 

Nasceu pra coisa?

 

Sim, a literatura é incrível, e o que há por detrás dela mais ainda. Vá até sua livraria predileta. Ali, poderá observar uma trinca de volumes de capa preta sob o título em relevo de Inferno Provisório. Romances! O autor é Luiz Ruffato. Poucas informações a seu respeito. É mineiro, tem 46 anos. Mas, ao dedilhar suas obras anteriores, o leitor destrinchará um punhado de prêmios como da Associação Paulista dos Críticos de Arte (três vezes) e Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional. Além disso, o sujeito inspirou uma peça de teatro e está editado na Itália, França e Espanha.

 

Mas Ruffato, acredite, já foi ajudante de pipoqueiro e vendedor de quebra-queixo aos 6 anos de idade. Depois, pela ordem, atuou como caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil (do setor de algodão hidrófilo), torneiro-mecânico, jornalista, sócio de uma assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo. E desde 2003 vive apenas da literatura.

 

Ruffato diz que não deseja mais nada, por isso é capaz de desejar tudo. Que a pretensão dos seus pais, semianalfabetos e pobres de Cataguases (MG), era que ele se transformasse em torneiro-mecânico. “Eu superei qualquer expectativa”, confessa. “Na minha casa havia um único livro, a Bíblia, do meu pai evangélico. Eu só vim a ser apresentado a um livro quando tinha uns 14 anos, e por acaso. Um dia, meu pai conseguiu uma vaga para mim numa escola boa da cidade, onde estudavam os ricos. Eu me sentia um completo estranho no meio daquelas pessoas todas e então passei, por timidez e por exclusão, a circular pela biblioteca, como meio de fuga. Entrava e ficava perambulando por entre as mesas e cadeiras. Até que um dia a bibliotecária me entregou um livro e eu não tive coragem de recusar. Levei-o para casa, li, fiquei doente e daí para a frente passei a ser um voraz e onívoro consumidor de livros”, afirma.

 

Fama instantânea?

 

Autor de Cinzas do Norte, que vendeu 15 mil exemplares e recebeu os prêmios Jabuti, Portugal Telecom, Bravo! e APCA, o amazonense Milton Hatoum, 55 anos, navega numa maré boa de superlativos. Mas nem sempre a vida lhe sorriu assim. Sua consagração atual esconde uma luta incansável, e nada vã, com as palavras. Ele só conseguiu publicar em 1989 (aos 37 anos, portanto). Tratava-se do elogiado romance Relato de um Certo Oriente, que imediatamente conquistou os leitores mais exigentes.

 

Antes, Hatoum estudou arquitetura na USP, estagiou numa construtora, lecionou em faculdade do interior de São Paulo, envolveu-se em projetos arquitetônicos na década de 70, colaborou com a seção de cultura da revista IstoÉ, morou mais de quatro anos na Europa. De 1985 a 1999, entrava em sala de aula como pacato professor da Universidade Federal do Amazonas. Passou algumas temporadas na Califórnia, onde conduziu atividades na Universidade de Berkeley.

 

Nada mal para quem fez bicos inimagináveis na Espanha, como cantar nas calçadas de Madri. Ao lado de uma exilada argentina, Hatoum entoava alguns clássicos da MPB para completar o orçamento. “A gente aprende com os erros. Não há nada mais humano que o fracasso. Aprendi a dialogar. Escrevo um manuscrito e dialogo com os editores, os amigos. E aprendo com eles. Acho que ninguém sabe o que vai acontecer com um livro. É um grande mistério. Às vezes é um fracasso total, outras vezes pode cair nas graças do bom leitor. E não há prêmio que substitua um bom leitor, porque ele justifica a literatura. Não esperava ser lido por um grande número de leitores, e isso está acontecendo com o Dois Irmãos. Pensava que minha mãe seria a única leitora. E ela, ao contrário, tinha certeza de que meus livros seriam sucesso de público e crítica. Quis saber por que, e ela respondeu: ‘Você nunca vai saber o que é intuição de mãe’,” afirma ele.

 

Trabalho fácil?

 

Teimosia é confiança no talento. O escritor gaúcho Charles Kiefer, 48 anos, literalmente correu atrás da máquina. Foi motorista de caminhão, bancário, jornalista, passador de sinteco, vendedor de enciclopédia, datilógrafo, radialista, funcionário de cooperativa agrícola, assessor editorial, instrutor de oficinas literárias, secretário de Cultura de Porto Alegre e sub-secretário de Cultura do estado do Rio Grande do Sul.

 

Kiefer já vendeu mais de 100 mil exemplares de sua novela Caminhando na Chuva. Ganhou alguns Jabutis. Outros livros seus viraram argumentos para filmes. Sua ascensão contou com a solidariedade generosa da namorada, na época em que vendia peixes de porta em porta. A mãe de sua primeira filha fingia que não reparava em seu insuportável cheiro de cardume. Hoje ele não cheira mais a mar, mas não abdica de nenhuma das experiências anteriores que o ajudaram a elaborar personagens.

 

Outrora colono da pacata cidade de Três de Maio, nos rincões gaúchos, Charles Kiefer hoje ensina criação literária a aspirantes a escritores na PUC de Porto Alegre. É capaz de falar com propriedade da importância de partir para a rua e conhecer o mundo como ele é. “Tenho um romance, Valsa para Bruno Stein, que agora virou filme, que se passa numa olaria. Todo mundo me pergunta como é que sei tanto sobre o processo de industrialização primitivo de uma olaria. Ora, entre os muitos trabalhos que fiz na vida, um deles foi trabalhar em olaria, cortando barro, gradeando tijolos, enfornando tijolos, queimando tijolos e, finalmente, transportando os tijolos prontos num velho caminhão F-600. A viagem do escritor tem 5 mil quilômetros, mas é preciso dar o primeiro passo. Se eu escrevesse para ganhar dinheiro, já teria desistido. Eu escrevo para salvar a mim mesmo”, afirma.

 

Para saber mais

Livros:
Os Lados do Círculo, Amilcar Bettega Barbosa, Companhia das Letras
Inferno Provisório, (3 volumes), Luiz Ruffato, Record
Dois Irmãos, Milton Hatoum, Companhia das Letras
Caminhando na Chuva, Charles Kiefer, Ática

Fonte: Vida Simples

 

 

Matéria 2:

 

30 mandamentos para ser leitor, escritor e crítico

Ilustrações: Yiu Rojas

 

Decalógo do leitor
Por Alberto Mussa

 

I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos,

diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.
III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.
IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.
V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.
VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.
VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.
IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.
X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.

 

Decálogo do autor
Por Miguel Sanches Neto

Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar

 

I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.
III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,
você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.
IV - Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.
V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

VI - Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora. Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso. Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele...
VII - Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial. É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou. Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar. Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas. Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.
VIII - Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro. Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos. Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação. E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.
IX - Nunca passe recibo às críticas negativas. Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.
X - Evite reclamar de sua editora. Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe... Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.

 

Decálogo do crítico
Por Michel Laub

Ler por obrigação, ganhar pouco, ser odiado por autores criticados ou ignorados por você. Ante tantos dissabores, saiba para que serve, afinal, fazer crítica literária

 

I - Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, a biografia do americano Robert Parker. Trata-se da figura mais polêmica do universo milionário da enologia. Uma nota alta na The Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante; uma nota baixa pode significar a falência. O olfato de Parker é segurado em cerca de US$ 1 milhão. Ao longo dos anos, percebeu-se que ele gostava de vinhos frutados.

Muitas propriedades, até algumas tradicionais da França, passaram a chamar especialistas para estudar o solo, mudar a forma do plantio e da colheita, tudo para colher uvas que originassem vinhos adequados a esse gosto.

II - Saiba que esse talvez seja o exemplo máximo de crítico bem-sucedido no mundo de hoje – rico de fato, influente de fato, uma presença de fato essencial em seu meio. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, gastronomia, televisão ou concursos de beleza, estão bem mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinqüenta(...) [trabalha num] conjugado frio, mas abafado (...). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam 50 ou 100 sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.
III - Ou seja, prepare-se para uma atividade enfadonha e mal-remunerada. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, não há nada a dizer sobre ele. Porque sempre haverá o que dizer. Se não houver, as contas não são pagas.
IV - Não se preocupe, porém. Há muitos truques para encher essas páginas em branco. Se você quer desancar um livro e não sabe como, recorra a alguns adjetivos algo abstratos em se tratando de literatura, mas ainda assim úteis numa resenha. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos de sua obra. Afinal, explorar conflitos é uma tarefa que não tem fim, e há um momento em que todo autor, por mais extrovertido que seja, precisa parar. Outros chavões sempre à mão: excesso de objetividade,excesso de subjetivismo, excesso de frieza, excesso de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda bastante. Um romance correto, instigante e envolvente pode ser atacado por reproduzir um modelo “burguês” de contar histórias, incompatível com o nosso tempo. Um romance sem essas características pode ser destruído, justamente, por ser mal-escrito e não envolver o leitor.
V - Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim – o das linhas finais do item IV, por exemplo –, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável, escatológica e/ou ilegível, diga que ela reproduz o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à trama caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que a maçaroca reproduz, como uma “metáfora estrutural”, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.

VI - Usando desses truques, você está pronto para fazer nome devido à afinação com o vocabulário crítico de sua época. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a realmente dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar cegamente nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de seus preconceitos íntimos em público. Assim, você terá mais chances de ser considerado um sujeito ranheta, excêntrico e/ou pervertido.
VII - O segundo caminho é considerar-se portavoz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado (por questões sociológicas, por exemplo). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade para não se considerar o juiz definitivo sobre o que é ou não relevante em termos estéticos –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem graça.
VIII - Independentemente de sua escolha, é inevitável que você seja desprezado. Todos dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta, que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da universidade, arrumar um(a) namorado(a) – ou está a soldo de alguma entidade obscura – grupos literários rivais, editores, maçons, seitas religiosas, partidos políticos de esquerda (se você escrever numa pequena publicação) ou de direita (se receber salário de alguma corporação de mídia).
IX - Mais que isso: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia (os motivos serão sempre os errados, na opinião deles). Pelos outros críticos. Por boa parte do público, mesmo por aquele que o lê com freqüência.
X - Mas se, apesar de tudo isso, você ainda insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato, Robert Parker era capaz de listar todos os ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria um campeão absoluto dos “testes cegos” de identificação de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para conjugar erudição e capacidade interpretativa em tamanha escala? Sendo a resposta afirmativa, trata-se de uma ótima notícia. Não só para você, que talvez tenha achado um modo honesto de ganhar a vida, mas para o próprio meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje ou em qualquer tempo: alguém que o ajude a firmar tendências, corrigir rumos, separar o joio do trigo. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.

 

Fonte: EntreLivros

5 Recado(s). Após o sinal, deixe o seu!:

Du

Oi Juca, adorei o Post!!!!
Deixei um presente e um meme pra ti no Norte, ok? Espero que gostes...

Beijussssssssssssss

Juca

Já gosteiiiiiii, já gosteiiii! É que antes de ler seu recadinho por aqui já havia ido ao Norte saber se estava entre os "indicados"! rs rs
Explico! É que estava passeando por terras lusitanas (Palavras Articuladas), e vi seu aviso pra Lusófona. Aí pensei: será que estou no meio dos sortudos? Fui até lá conferir e, bingo, fui agraciado com o Oscar! rs rs Fiquei muito lisonjeado e feliz!

Obrigado, de coração, pelo carinho!
Beijão!
Juca

PS: Isto aqui tá melhor que orkut! rs rs

Ru Correa

Tem uma "coisinha" pra você lá no OtherSide! Corre lá!!
Cooooooooooorre!!
hehehehe

http://ru-otherside.blogspot.com/

Beeeeeeeeeeijos!!!

Lusófona

Granda matéria.... vou levar pelo menos dois dias a ler...afff..rsrsr

já li metade, depois volto pra terminar e comentar decentemente, pois o assunto muito enteressa-me =0)

Beijokas e feliz domingo

SaM

Há sempre que seguir os nossos sonhos... Nunca é tarde para realizar!

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