segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Até quando 'vale tudo' em nome da religião?

O diário de uma menina obrigada a se casar revela as práticas da seita do Texas

David Alandete

Em Washington

"Ele me mostrou que devo realizar três uniões matrimoniais esta noite." Em 27 de julho de 2006, Warren Jeffs, profeta da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, explicou em seu diário as revelações divinas que havia recebido naquele dia. Uma delas mandava que ele casasse três menores, entre elas sua própria filha de 15 anos, Teresa Jeffs. Devia entregá-la a um homem de 38 anos. "Reuni minha filha e sua mãe, Annette, esta tarde para lhes explicar como ser esposas celestiais e manter-se ao lado de seu marido sempre." Naquela noite o profeta deu sua filha em matrimônio espiritual na fazenda Yearning for Zion (Anseio por Sião), no Texas. O marido escolhido por Deus era Raymond Jessop, filho de um bispo da seita, Merril Jessop, gerente da fazenda e substituto de Jeffs.

"Meu pai me disse que o Senhor queria que me casasse esta noite. Ele me perguntou: O que você acha? Está disposta?", anotou Teresa em seu diário. A vontade de Deus é inquebrantável na seita fundamentalista mórmon. A voz do profeta é a única verdade. "O Senhor me abençoou e me deu forças para me casar em 27 de julho de 2006, um dia depois de ter completado 15 anos", escreveu a menor em seu caderno cinco meses depois. Espera-se que as meninas mantenham relações sexuais desde o primeiro instante do casamento para engravidar e "encher a terra de fiéis".

Aquele foi um dia especial para a família Jeffs. Na mesma noite de 27 de julho, às 20h30, o profeta, o líder de todos os "santos" fundamentalistas, o tio Warren, tomou uma nova esposa. "Dou graças a Deus por esse presente e esta bênção", escreveu Jeffs. Ela tinha 12 anos e era, por sua vez, filha do bispo Jessop. Ambos trocaram suas próprias filhas. "Deleguei Merril para que oficiasse a união. E assim se uniu Merianne Jessop com Warren Jeffs. Esse sou eu!", diz o profeta em seu diário.

Esses textos pessoais chegaram ao tribunal do condado de Schleicher, no oeste do Texas. A polícia vasculhou a fazenda em abril passado e encontrou centenas de diários, fitas gravadas, álbuns de fotos e discos rígidos que estão sendo usados para determinar que tipo de abuso houve nesse lugar desde que a seita o comprou em 2004.

Ao lado do diário de Jeffs estão as fotos do dia de seu casamento. São seis imagens em que Jeffs usa terno preto com gravata branca. A menina Merianne Jessop chega à altura de seu peito. Vestida com um dos trajes que obrigam as mulheres da seita a usar, de cor pastel e abotoado até o pescoço, ela se agarra às mãos de seu marido, seu novo dono e senhor. Também foram encontradas muitas outras fotos nas quais se vê Jeffs "beijando meninas como se fossem suas mulheres", segundo um relatório judicial. Calcula-se que o profeta tenha mais de 60 esposas entre os assentamentos da seita no Texas, Arizona, Utah e Colúmbia Britânica, no Canadá.

Um mês depois desse casamento, um policial de trânsito de Nevada deteria Jeffs nas proximidades de Las Vegas. Estava sob ordem de prisão e fugia em um Cadillac vermelho, com três perucas de mulher, 16 telefones celulares, quatro computadores e US$ 55 mil em espécie. Seria extraditado para Utah, onde é condenado a dez anos de prisão por realizar o casamento de Elissa Wall, 14 anos, com seu primo-irmão de 19.

Outro julgamento o aguarda no Arizona, também sob a acusação de organizar casamentos com menores de idade. E agora se acrescentou um terceiro. A juíza Barbara Walther, do condado de Schleicher, acusou o profeta e outros cinco sacerdotes da seita por "crimes associados ao abuso de menores e à poligamia". Depois do julgamento no Arizona, Jeffs se sentará no banco dos réus no Texas para responder pelo que aconteceu na fazenda Yearning for Zion.

Jeffs transferiu para essa fazenda seus seguidores mais incondicionais. Ali casou meninas de não mais de 15 anos com bispos. Unir-se a um idoso é símbolo de poder, mas limitado: as mulheres são consideradas literalmente propriedade da seita. Cada sacerdote ou bispo deve ter pelo menos três mulheres para alcançar o céu. Quanto mais esposas, mais rápido se entra no paraíso.


A Agência de Proteção a Menores dos EUA transferiu no início de abril as 440 crianças da fazenda da seita para Fuerte Concho e depois para diversos locais do Texas, com famílias. Em maio a Suprema Corte do Estado ordenou que as crianças voltassem a ficar com seus pais, pois o "risco de abuso não era iminente". Agora parece que a juíza Walther tem provas suficientes para acusar Jeffs e uma boa parte de seus sacerdotes.


"Esta é uma tentativa desesperada do estado do Texas para lavar as mãos depois da barbárie que organizou em sua primeira batida na fazenda", disse na quarta-feira um porta-voz da seita, Willie Jessop, que qualificou a situação de "genocídio". Natalie Malonis, advogada que defende Teresa, a filha de Warren Jeffs, respondeu: "A imputação demonstra que havia um grande perigo para essas crianças".


A relação entre Malonis e seu cliente é tempestuosa. Teresa não se sente representada por ela. Em 20 de junho escreveu à jurista um e-mail em que dizia: "Cale a boca e pare de me chamar de vítima de abuso sexual. Estou cansada de que me chame disso, quando não sou nenhuma vítima de abusos sexuais e você não tem nenhuma prova que demonstre que eu tive relações sexuais".


Em seu mundo, o do fundamentalismo mórmon, Teresa se considera livre porque a liberdade é fazer o que Deus quer. As normas dos outros mortais não contam. Só importa o que o Senhor disser, e o Senhor só fala pela boca de uma pessoa, a de seu próprio pai, o profeta Warren Jeffs. O resto é pecado.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: UOL Mídia Global

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Du

Juca, ouvimos muitas vezes dizer que as religiões são, em si mesmas, portadoras de violência. Trata-se sem dúvida de um contra-senso, mas de qualquer modo aquilo a que chamamos a cultura “religiosa” está cheio de contra-sensos. O homem ocidental é uma espécie de primata quase sempre seguro da justeza das suas convicções.
Mas, é preciso acabar de vez com essa falsa ideia segundo a qual as religiões são violentas. Muitas vezes, é o contrário que é verdadeiro. Muitas vezes, a ausência de religião é mais destruidora que a consagração a uma fé...
São inúmeras as atrocidades cometidas pelos humanos que nada têm a ver com religião, mesmo quando fazem uso de um pretexto “religioso”.
As sociedades humanas são violentas porque o homem, em todos os tempos e em todos os lugares, é um animal violento. O que lemos imensas vezes na História é que a “religião” foi usada como pretexto para exercer violências, para obter mais proveitos e para obter mais poder.
Esse tipo de coisa sempre me comove e ao mesmo tempo, me irrita profundamente!

Um grande beijo, meu amigo!

Esse tipo de coisa me deixa muito triste. Muitas vezes contesto a minha religião também. Como sou uma pessoa muito ativa dentro da minha religião, fico ao par de coisas que ninguém pode e nem pensa que possa existir.
Como bem disse a Du, me irrita profundamente.
Muitas são as minhas pergintas, e falta de respostas então...
Mas as coisas estão rumos que Deus com certeza está providenciando alguma coisa para tudo isso ter um fim. E é disso que eu temo.
Beijos meu lindo!

Urbano Leonel Sant' Anna

Bah, Juca!

Se isto acontece no principal país do mundo ocidental, na indiscutível potência número um da civilização judaico-cristã, o que será que acontece naqueles países extremamente subdesenvolvidos da África? Ou em alguma cidadezinha abandonada por Deus do Nordeste? Ou, como se diz aqui em Porto Alegre, e lá em Cacimbinhas?

Só tenho uma palavra: lamentável!

Um abraço, Juca!

Amigao

É uma pena amigão que coisas como estas ainda acontençam por ai.

Mas...nem sei o que comentar mesmo.
Religião é uma coisa muito pessoal.

Juca

Amigão, é uma pena mesmo que em pleno século 21 ainda usem a religião como desculpa para realizarem seus desejos mais escusos. É apenas isso que procuro mostrar neste post.

Mas você tem razão, falar sobre algo quando a religião se apresenta como pano de fundo é mesmo complexo!

Abração!

Lorena

Olha, Juca... lendo coisas desse tipo é que eu não sei onde a humanidade vai parar nessa paranóia que é o "mundo da religião". Não a espiritualidade, essa é outra coisa... mas a instituição, as normas, as invencionices dessas pessoas que se dizem "profetas" de um Deus que é o avesso daquilo que deveria ser. O pior, pra mim, não são nem os "bispos" que usam o poder do ministério pra fazer o que bem entendem, não. O maior problema, na minha opinião, é a falta de perspectiva, Juca, a falta de bom senso, de capacidade de discernimento, de capacidade de reflexão, que as pessoas que participam de determinadas denominações apresentam. Nessas horas eu não tenho como discordar de Marx, a religião é mesmo um ópio, um intorpecente capaz de levar o ser humano a fazer coisas inecreditáveis, absurdas, e acreditando que é o melhor pra si.

Esse seu texto me fez lembrar que quero mto tratar desse assunto no meu espaço, sabe. Ontem estava lendo uma coluna sobre Evolução na G1, e lendo os comentários das pessoas que se dizem "religiosas"... putz, que facada no peito! Eu fiquei tão transtornada com algumas respostas que até preferi deixar passar um pouco, escrever outro dia, sem me deixar influenciar pelo "calor" do momento... mas ainda preciso escrever minha opinião.

enfim, vim aqui e escrevi um testamento! hahahaha! Esotu te linkando também, tá?? Não acredito que até hj não tinha feito isso. =)

beijos, querido!

NANA

As pessoas fazem ainda muitos absurdos em nome de Deus.
Há um tempão atras fiz um post sobre uma família americana que comete loucuras em nome de uma religião criada por eles mesmo.
Coisa de louco mesmo.
Coisas de humanos...

Juca

Então, meus queridos amigos, o propósito deste post foi única e exclusivamente tentar expor nossa fragilidade diante de situações em que usam o nome de Deus, em forma de religiões e crenças das mais diversas, como direito irrestrito para cometer tantas atrocidades por este mundão afora.

Falamos tanto em amor ao próximo, compaixão, solidariedade, justiça dos homens e do Criador, mas quando temos a chance de genuinamente demonstrar tais sentimentos usamos aquele argumento (em nome do Senhor, Criador, Deus) para satisfazer nossos mais baixos instintos, nosso egoísmo desce ao mais profundo dos poços.

Enfim, quero deixar claro que não critico esta ou aquela religião, pois vejo amor, beleza, enfim, vida em todas elas, vejo ensinamentos e propósitos em todas, mas não posso concordar com o uso maléfico que fazem delas. É isso!! :-)

Obrigado, Du, Rô, Urbano, Lorena, Nana e Amigão! Percebo que concordamos exatamente naquilo que busquei expor aqui: a união entre os povos e as religiões, sem exageros ou extremismos que não nos levam a lugar algum, que devemos amar ao próximo e não tirar proveito da fé dele.

Beijos e Abraços no coração de vocês todos!

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